A minha vida num Psi...

Abril 11 2009

Na sala dos espelhos, Espelho-Raso experimentou abrir os olhos. Há horas que queria sentir aquilo que lhe diziam ser um mar emocional! Nem pensar, foram as suas primeiras palavras. Tenho medo do que possa ver nessa sala, foram as segundas.

Corajoso, lá descolou as pálpebras. De olho semi-serrado a olho aberto de espanto, mirou tudo à sua volta. À sua frente encontrava-se outro espelho-raso e depressa se descobriu... Logo percebeu que o que via era o seu próprio reflexo e que todas as imagens isoladas das suas partes corporais se juntaram numa só... a imagem completa de si mesmo.

Espantou-se! Então era assim que ele era! Nunca teria imaginado! Sou um espelho brilhante, diferente daquilo que os outros me iam explicando sobre mim mesmo, mas ao mesmo tempo muito semelhante aos outros espelhos da sala, pensou Espelho-Raso.

Da imagem que os outros lhe iam dando do espelhamento que lhe faziam, Espelho-Raso apercebeu-se que tinha algo que o separava dos outros, uma moldura... Uma pele só sua! Uma textura, uma espessura, um volume que o circunscrevia e que o identificava como o Espelho-Raso daquele grupo. Do espelho à sua frente também se apercebeu que também ele reflectia o outro que tinha à sua frente, descobrindo-se também nesses reflexos como camadas que se vão descobrindo, cada vez mais profundas.

Encantado, olhou em redor e descobriu o espelho concavo. Mas este tinha uma surpresa! E além dele mesmo descobriu-se reflectido com o mundo à sua volta, com todos os espelhos que ali se encontravam que se espelhavam e a quem cada qual respondia com outro espelhamento. E descobriu o seu espelhamento para o mundo!

O espelho convexo, por sua vez reflectiu-lhe uma imagem ora distorcida, ora selvagem de si... Nada mais que um complemento de si mesmo.

Neste turbilhão emocional e de descoberta Espelho-Raso sorriu e as lágrimas soltaram-se dos seus olhos já sem qualquer pudor como outrora as pálpebras haviam feito.

Então ele era assim! Raso, concavo, convexo, reflexo, reflexo-do-reflexo, concavo-do-reflexo-do-concavo... Mas, ao mesmo tempo, todos os que o espelhavam também lhe sorriram como que lhe dando as boas vindas. E isso foi maravilhosamente completo!

 

Neste texto, escrevo aquilo que a ideia de "Fase do Espelho" de Lacan me fez pensar. Lacan é psicanalista, filósofo, psicólogo, médico, irreverente, arrogante... mas muito simples na sua faceta de escritor!

 

Publicado por Larissa às 17:24

O modo como eu vejo o mundo... Tão condicionado como o de qualquer outra pessoa.
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